AUTOR: Antony Giddens
Hoje vivemos – no começo do século XXI – num mundo profundamente preocupante, porém repleto das mais extraordinárias promessas para o futuro. È um mundo inundado de mudanças, marcado por enormes conflitos, tensões e divisões sociais, como também pelo ataque destrutivo da tecnologia moderna ao ambiente natural. Mesmo assim, temos possibilidades de controlar nosso destino e moldar nossas vidas para melhor, de um modo inimaginável para as gerações anteriores.
Como esse mundo surgiu? Porque nossas condições de vida são tão diferentes daqueles de nossos pais e avós? Que direção as mudanças tomarão no futuro? Essas questões são a principal preocupação da sociologia, um campo de estudo que consequentemente tem um papel fundamental na cultura intelectual moderna.
A sociologia é o estudo da vida social humana, dos grupos e das sociedades. È pretensão da sociologia é estudar o nosso próprio comportamento como seres sociais.
A maioria de nós vê o mundo a partir de características familiares a nossas próprias vidas. A sociologia mostra a necessidade de assumir uma visão mais ampla sobre por que somos como somos e por que agimos como agimos. Ela nos ensina que aquilo que encaramos como natural, inevitável, bom ou verdadeiro, pode não ser bem assim e que os “dados” de nossa vida são fortemente influenciados por forças históricas e sociais. Entender os modos sutis, porém complexos e profundos, pelos quais nossas vidas individuais refletem os contextos de nossa experiência social é fundamental para o estudo sociológico.
PENSAR SOCIOLOGICAMENTE
Aprender a pensar sociologicamente – olhando- em outras palavras, de forma mais ampla – significa cultivar a imaginação. Estudar sociologia não pode ser apenas um processo rotineiro de adquirir conhecimento. Um sociólogo é alguém que é capaz de se libertar da imediatidade das circunstâncias pessoais e apresentar as coisas num contexto mais amplo. O trabalho sociológico depende daquilo que o autor norte-americano C. Wright Mills, numa frase famosa, chamou de imaginação sociológica.
A imaginação sociológica, acima de tudo, exige de nós que pensamos fora das rotinas familiares de nossas vidas cotidianas, a fim de que as observemos de modo renovado. Considere o simples ato de tomar café. O que poderíamos dizer, a partir de um ponto de vista sociológico, sobre esse exemplo de comportamento aparentemente desinteressante? Muitas e muitas coisas.
Poderíamos assinalar, antes de tudo, que o café não é somente um refresco. Ele possui um valor simbólico como parte de nossas atividades sociais diárias. Frequentemente, o ritual associado a beber café é muito mais importante do que o ato de consumir bebida propriamente dita. Para muitos ocidentais, a xícara de café pela manhã ocupa o centro de uma rotina pessoal. Ela é o primeiro passo essencial, para começar o dia. O café bebido de manhã é muitas vezes seguido depois, durante o dia, por um café em companhia de outras pessoas – a base de um ritual social. Duas pessoas que combinam de se encontrar para o café estão, provavelmente, mais interessadas em ficarem juntas e conversas do que naquilo que realmente bebem. Na realidade, comer e beber, em todas as sociedades, fornecem ocasiões para a interação social e para a realização de rituais, oferecendo um assunto rico pra o estudo sociológico.
Em segundo lugar, o café é uma droga, por conter cafeína, que tem um efeito estimulante sobre o cérebro. Muitas pessoas bebem café pelo “estímulo extra” que ele produz. Dias longos de trabalho e noites de estudo até tarde tornam-se mais toleráveis graças ás pausas para o café. O café é uma substância que cria dependência, mas os viciados em café não são vistos pela maioria das pessoas na cultura ocidental como usuários de drogas. Como o álcool. O café é uma droga socialmente aceita, enquanto há sociedades que toleram o consumo do álcool e desaprovam o café. Os sociólogos estão interessados na existência dos contrastes.
Em terceiro lugar, um indivíduo que bebe uma xícara de café é apanhado numa complicada trama de relacionamentos sociais e econômicos que se estendem pelo mundo. O café é um produto que conecta as pessoas das mais ricas e das mais empobrecidas partes do planeta: ele é consumido em grandes quantidades em países ricos, mas é cultivado principalmente em países pobres. Ao lado do petróleo, o café é uma das mercadorias mais valiosas no comércio internacional; ele fornece a muitos países sua maior fonte de rendas. A produção e a distribuição de café requerem transações contínuas entre pessoas a milhares de quilômetros de distancia do consumidor. Estudas tais transações globais é uma importante tarefa da sociologia, uma vez que muitos aspectos de nossas vidas são agora afetados por influencias e comunicações sociais em escala mundial.
Em quarto lugar, o ato de beber café pressupõe todo um processo passado de desenvolvimento social e econômico. Da mesma forma que outros itens da dieta ocidental agora familiares – como chá, bananas, batatas e açúcar branco – o café passou a ser largamente consumido a partir de fins do século XIX. Embora a bebida tenha se originado no Oriente Médio, seu consumo de massa, remonta ao período de expansão ocidental, que data de um século e meio. Virtualmente, todo café que bebemos hoje vem de áreas (América do Sul e África) que foram colonizadas pelos europeus; não é, portanto, de forma alguma, uma parte “natural” da dieta ocidental. O legado colonial tem tido um impacto enorme no desenvolvimento do comércio mundial de café.
Em quinto lugar, o café é um produto que permanece no centro dos debates contemporâneos sobre globalização, comércio internacional, direitos humanos e destruição ambiental. Como o café tem crescido em popularidade, ele passou a ser uma “marca” e ficou politizado: as decisões que os consumidores fazem sobre qual tipo de café beber e onde adquirir têm tornado-se escolhas de estilos de vida. Os indivíduos podem escolher beber somente café orgânico, café naturalmente descafeínado ou café “comercializado honestamente” (através de esquemas que pagam integralmente os preços de mercados a pequenos produtores de café em paises em desenvolvimento). Os consumidores podem boicotar o café vindo de certos países que violam os direitos humanos e acordos ambientais. Os sociólogos estão interessados em entender como a globalização aumenta a consciência das pessoas acerca de assuntos que vêm ocorrendo em cantos distantes do planeta, estimulando-as a desenvolver novo conhecimento em suas próprias vidas.
“Devemos ser a mudança que queremos ver no mundo”!
segunda-feira, 16 de março de 2009
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